domingo, 24 de maio de 2015

"Deve parecer com o pai, né?"


Estamos à véspera do Dia Nacional da Adoção e, desde que a Taís nasceu, sempre faço post de aniversário dela em comemoração ao dia, porém hoje vou abordar um tema que incomoda muito os pais independente de os filhos serem adotivos ou biológicos.

Vamos tratar do 'com que ele ou ela se parece'.

Este assunto surgiu num grupo agora, porém é recorrente em grupos virtuais de apoio à adoção. Já vi muita gente postando e comentando a respeito e embora algumas pessoas não se incomodem, a pergunta, via de regra, causa desconforto uma vez que vem de pessoas totalmente estranhas ao convívio da família.

Quando estamos num lugar público como um parquinho ou um restaurante e uma mãe chega com uma criança pequena é fato que esta criança nos chama a atenção. Geralmente nos aproximamos, mexemos com a criança e se esta e a sua mãe forem receptivas, engrenamos numa conversa que vai do elogio à criança ao desejo de saber qual a idade e a curiosidade de saber com quem a criança se parece se for muito diferente da sua mãe.
Esse tipo de abordagem é básica e quase geral:

- Que lindinho! Quantos anos (ou meses) ele tem? Ele não se parece com você, né? Deve parecer com o pai...

E aí vem uma pergunta que sempre me fiz por ter passado por isso diversas vezes: que relevância tem PARA MIM com quem se parece o filho de uma desconhecida? Em quê eu ter esta informação acrescenta em minha vida?
Se não é relevante, se não é importante, porque perguntar? Se não vai acrescentar nada, porque expor as pessoas desta forma? Satisfazer uma curiosidade ingênua? Será tão ingênua, assim?
Que diferença fez na vida daquela mulher que me abordou no parquinho quando meus filhos eram pequenos querer saber porque minha filha caçula não se parecia nem comigo, nem com os irmãos? O que ela ganhou? O que ela levou de bom para ela? O que ganhou a agente de saúde que estava aprendendo a conhecer os setores em expor meus filhos perguntando TRÊS VEZES se eu tinha certeza que eles eram meus filhos e me olhando com recriminação?

É isso que quero trazer como reflexão: porque é tão importante, para nós, sabermos da intimidade de um desconhecido que vimos naquele momento e que, possivelmente, não veremos nunca mais?
O que importa, para nós, se o filho não se parece com a mãe? Se a mãe é negra e o filho é branco, se a mãe é branca e o filho é negro? Que relevância tem querer saber se o pai é branco ou se o pai é negro?

Questionar uma pessoa estranha sobre algo tão íntimo, na minha opinião, é falta de respeito e uma tremenda invasão. Ninguém é obrigado a dar satisfação de com quem se parece o filho, mas em sendo questionadas, elas se sentem na obrigação de dar uma resposta.

Esses questionamentos são para aquelas pessoas que perguntam, que se empolgam em não controlar a curiosidade, mas tem, também, aquelas que olham e te julgam sem falar nada. Elas não perguntam com quem seu filho se parece. Elas te julgam e te condenam sem dizer uma única palavra!
Essas são as piores. Elas nem disfarçam. Não perguntam para satisfazer sua curiosidade ou para eliminar seus pensamentos perversos.
Quem já passou por isso sabe muito bem do que falo.
Eu já fui olhada diversas vezes, quando com toda a minha família, por senhoras aparentemente distintas cujos olhares eram de 'essa vadia traiu o marido. Essa criança não é filha dele'. Os olhares circulam de mim para a caçula, da caçula para os irmãos, dos irmãos para a caçula de novo e dela para o pai e dele para mim. Dá quase para ouvir o pensamento que esse tipo de olhar provoca.
Essa situação é pior do que quando a pessoa te aborda, porque se quando a pessoa pergunta você sente que não tem que expor sua vida, ainda assim tem uma oportunidade de falar qualquer coisa que satisfaça a curiosidade ou desfaça a perversidade do pensamento que a levou a perguntar. Já os olhares são invasivos, mais invasivos que as perguntas, penetram sua alma e causam um mal-estar sem tamanho, afinal que direito tem uma pessoa de me julgar moralmente através da aparência da minha família?

Que direito NÓS todos temos de fazermos pré-julgamento da aparência da família das pessoas que nos são estranhas e que não fazem parte do nosso círculo de convivência? Que direito temos de fazer pré-julgamento sem conhecermos a história daquela família e que direito temos de invadir querendo saber algo que não nos interessa devido à falta de intimidade?

Fica aqui, apenas, uma reflexão para todos nós para que não julguemos as aparências porque não nos interessa, não nos é relevante saber com quem os fii duzotro se parecem e se não é relevante, que contenhamos nossa curiosidade ao perguntar e nossa perversidade ao julgar com o olhar.
Cada família tem sua história e isso só interessa a ela.
Que polpemos os filhos alheios de ouvirem perguntas que possam constrangê-los e que nossos filhos sejam polpados das mesmas perguntas.

O mundo é cheio de diversidade, de mistura de raças e de famílias formadas pela adoção em sua mais ampla diversidade de formação. Em todos os casos filhos podem ou não se parecer com os pais. E isso só interessa a cada família.


Grande abraço!

Cláudia

3 comentários:

  1. Adorei o texto, já passei por esse constrangimento diversas vezes e agora com a chegada da caçula piorou... Como é difícil perceber olhares e a curiosidade das pessoas e ter que conviver com isso calada. Respeitar a familia alheia é amar ao próximo. Bj Patricia Alecrim

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  2. Muito bom Clau! Também já passei situação semelhante!!! bjks

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  3. Olá Claudia.
    Muito bom texto. Parabéns.
    Já fico seguidora do blog.
    Beijinhos e muitas felicidades.
    Alice (Olhar de Biju)

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